terça-feira, 25 de setembro de 2012

METADE





Era assim:
Meio bobo...
Meio desengonçado...
Meio rude...
Meio líder...
Meio homem...
(Muito moleque!)
Meio distante...
Meio falante...
Meio criativo...
(Muito estúpido!)
Meio doce...
Meio patético...
Meio romântico...
Meio frenético...
(Muito burro!)
Meio cínico...
Meio silêncio...
Meio palhaço...
(Meu mundo inteiro!)

OS OLHOS DE MARIA



How can the world just carry on?
I feel so lost when you are not at my side...

E você tem idéia, Maria, de como eram lindos os teus olhos? Olhos cor de mel tão inocentes, que quando eu os encarava, sentia que estava diante de uma criança e não de uma mãe. Mas eram os mesmos olhos que me acolhiam nas tempestades, porque também eram olhos de heroína.

E você tem idéia, Maria, de como eu amava vê-la dormindo? De como queria protegê-la do mundo (porque, sim, eu conhecia os teus medos mais profundos, só nunca tive coragem de demonstrar, pois nunca fui tão forte quanto tu eras). Ah, tantas vezes, nos nossos momentos difíceis (que não foram poucos) eu me ajoelhei e pedi a Deus que tirasse de mim toda a minha felicidade desde que você pudesse ser infimamente mais feliz. Ele nunca me atendeu, é claro, porque estar ao teu lado me fazia feliz.

Piadista. Irritadiça. Temperamental. Levemente pessimista. Dura na queda. Mas que fazia biquinho quando ia chorar e inflava as bochechas todas as vezes que passava raiva. Tão linda... Eu devia ter deixado de lado todas as minhas tribulações (que agora me parecem tão pequenas e insignificantes que nem parece ter valido a pena ter sofrido pelo que sofri ou chorado pelo que chorei) e ficado mais um pouco ao teu lado vendo tuas novelas chatas e repetitivas de que tu tanto gostavas, fazendo massagem em teus pés com aquele creme cheiroso que comprei e tão poucas vezes usei. Sinto falta de procurar filmes de terror para ti na TV e fazer gelatina para comer enquanto assistíamos ao Clube do Medo. Sinto falta de você na janela me dando tchau três vezes quando eu saía para a faculdade e sinto falta mesmo de ter de parar tudo que fazia pra te acordar às quatro horas da tarde, para que você pudesse ir assistir ao Rei do Gado no Viva.

Sinto falta da tua risada, Maria. Sinto falta de você reclamando por alguma coisa boba. Sinto falta das nossas discussões, porque eu sempre gostei de ir na contramão do mundo, e você acabava vindo junto, mesmo que de mau gosto. Sinto falta de não termos tido uma última conversa providencial. Me arrependo de ter te convencido a não comprar a comida que você queria naquele dia fatídico. Me arrependo de ter ficado tão desesperada ao te ver tombar que por minutos tudo que fiz foi chorar.

Como se toca uma vida sem você, Maria? Como se segue em frente sem teus olhos? Como se faz festa sem você por perto? Como se faz planos sem a tua benção? Como se dorme sem você por perto? A verdade é que não se faz nada disso, Maria, porque a cada minuto você está no meu pensamento. A verdade é que para mim tua partida nunca fará sentido, e será como foi com o vovô, eu sempre irei esperar que a qualquer instante você apareça com um daqueles vestidinhos coloridos, teu jeito de cigana astuta e teus olhos inocentes, me dizendo pra sair da porcaria do computador e apressar a arrumação das coisas, porque mais tarde veríamos alguns filmes juntas.

... E eu te amo, Maria.


Em homenagem à minha Maria... À minha mãe... Que agora, mais do que nunca, se tornou meu anjo.

domingo, 23 de setembro de 2012

PASSAGENS





Cega lâmina...!
Fogo, Terra, Tempestade
Ternos olhos de Primaveras esquecidas...
Dançam flor, lágrima e saudade
no fio de uma navalha perdida.
Cega lâmina...!
Água, Vento e Geada
Olhos glaciais de Inverno
de uma criança tola e cristalizada observando o horizonte
Feito de nãos, vazios e nadas.
Cega lâmina...!
Aço forte contra corações pulsantes...
Pintados do vermelho da magia.



domingo, 16 de setembro de 2012

CANTIGA DA MENINA ANTIGA




Deixa-te embalar, criança!
O velho balanço geme contra o galho ainda mais antigo...
Deixa-te embalar e descansa
Que a vida passa depressa...

Balança-te em direção ao precipício
Vê de relance o barranco
Desafia o mundo, e gira, e canta
E chora, chora baixinho, enquanto o vento uiva.

A casa atrás de ti já não te pertence...
És brinquedo quebrado, boneca de porcelana.
Deixa-te embalar enquanto o sol desce,
a lua nasce e o tempo perece.

E que tua mente divague sobre o pó das estrelas do céu.
E que tua alma lentamente livre-se do véu.
E que teu coração arrebente!

LEVEZA



Para minha querida amiga, irmã, prima, confidente e caso de amor antigo, Jordana. Porque os dias de cão acabaram! <3 


Mas a felicidade é tão leve meu bem,
que só pra se mostrar criou as nuvens.
E aposto que ela deu forma e cor ao arco-íris
e ao sorriso no seu rosto e ao brilho nos seus olhos.

A felicidade é branda e faceira meu bem,
ela chega se requebrando e pouco se importa com sua opinião.
A ela você pertence, pertencerá e pertenceu,
e não te resta nenhuma outra opção.

Mas a felicidade é tão bonita meu bem,
e tão generosa que te faz feliz e me faz feliz também.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

DIÁLOGOS SOBRE A DELICADEZA



Pôs a mão na boca enquanto olhos ternos se encantavam com o azul do céu

“Mamãe, por que os pássaros voam?”

“Porque são feitos de sonhos, Sophia.”

“Ah...”

E a mãe admirava de soslaio o corpo miúdo e os lábios manchados de chocolate

A delicadeza posta em cachos, sorrisos, quartos rosados e brinquedos quebrados...

... Pele morena, boca pequena, perguntas repentinas e calcinhas de babados.

“Mamãe, o que são as estrelas?”

“São as bênçãos que os pais desejam aos filhos, Sophia.”

“Ah...”

Ambas gastariam horas com desajeitados passos de balé, bichos modelados em massas de cores exóticas...

... Um cartão para o papai.
(“Ele vai ‘gostir’, não vai?”)

... Uma ligação para a vovó.
(“Amo tu, Inha.”)

... Uma última oração ao anjo da guarda.
Boa noite. Eu te amo.
Para sempre, Sophia.





Uma homenagem à Sophia que - mesmo que ainda more apenas nos meus sonhos - torna luminosos os dias de chuva e transforma em primavera e cor qualquer outra estação ou estado.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O HOMEM SÓ




Ele não tinha nome nem nação. Ele não tinha voz nem rosto. Ele não tinha sombra nem rastro. Ele não tinha correias nem vontade. Ele não tinha corpo nem alma. Ele não tinha ideologia nem verdade. Ele não tinha sonho nem vida. Ele não tinha lugar de pouso nem de partida. Ele não tinha início nem fim. Ele não era nem criança, nem homem, nem velho, nem carne morta corroída por vermes, virando o humus da terra. Ele simplesmente era em sua capacidade de não ser. Ele simplesmente tinha em seu poder de não ter. Ele...