E você tem idéia, Maria, de como eram lindos os teus olhos? Olhos cor de mel tão inocentes, que quando eu os encarava, sentia que estava diante de uma criança e não de uma mãe. Mas eram os mesmos olhos que me acolhiam nas tempestades, porque também eram olhos de heroína.
E você tem idéia, Maria, de como eu amava vê-la dormindo? De como queria protegê-la do mundo (porque, sim, eu conhecia os teus medos mais profundos, só nunca tive coragem de demonstrar, pois nunca fui tão forte quanto tu eras). Ah, tantas vezes, nos nossos momentos difíceis (que não foram poucos) eu me ajoelhei e pedi a Deus que tirasse de mim toda a minha felicidade desde que você pudesse ser infimamente mais feliz. Ele nunca me atendeu, é claro, porque estar ao teu lado me fazia feliz.
Piadista. Irritadiça. Temperamental. Levemente pessimista. Dura na queda. Mas que fazia biquinho quando ia chorar e inflava as bochechas todas as vezes que passava raiva. Tão linda... Eu devia ter deixado de lado todas as minhas tribulações (que agora me parecem tão pequenas e insignificantes que nem parece ter valido a pena ter sofrido pelo que sofri ou chorado pelo que chorei) e ficado mais um pouco ao teu lado vendo tuas novelas chatas e repetitivas de que tu tanto gostavas, fazendo massagem em teus pés com aquele creme cheiroso que comprei e tão poucas vezes usei. Sinto falta de procurar filmes de terror para ti na TV e fazer gelatina para comer enquanto assistíamos ao Clube do Medo. Sinto falta de você na janela me dando tchau três vezes quando eu saía para a faculdade e sinto falta mesmo de ter de parar tudo que fazia pra te acordar às quatro horas da tarde, para que você pudesse ir assistir ao Rei do Gado no Viva.
Sinto falta da tua risada, Maria. Sinto falta de você reclamando por alguma coisa boba. Sinto falta das nossas discussões, porque eu sempre gostei de ir na contramão do mundo, e você acabava vindo junto, mesmo que de mau gosto. Sinto falta de não termos tido uma última conversa providencial. Me arrependo de ter te convencido a não comprar a comida que você queria naquele dia fatídico. Me arrependo de ter ficado tão desesperada ao te ver tombar que por minutos tudo que fiz foi chorar.
Como se toca uma vida sem você, Maria? Como se segue em frente sem teus olhos? Como se faz festa sem você por perto? Como se faz planos sem a tua benção? Como se dorme sem você por perto? A verdade é que não se faz nada disso, Maria, porque a cada minuto você está no meu pensamento. A verdade é que para mim tua partida nunca fará sentido, e será como foi com o vovô, eu sempre irei esperar que a qualquer instante você apareça com um daqueles vestidinhos coloridos, teu jeito de cigana astuta e teus olhos inocentes, me dizendo pra sair da porcaria do computador e apressar a arrumação das coisas, porque mais tarde veríamos alguns filmes juntas.
... E eu te amo, Maria.
Em homenagem à minha Maria... À minha mãe... Que agora, mais do que nunca, se tornou meu anjo.
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